| Os verdadeiros heróis Cada um escolhe os seus heróis. Houve um tempo, já distante, mas que preservo com carinho no meu baú de memórias, em que meus heróis usavam roupas coloridas e possuíam superpoderes que, apesar de tudo, eram insuficientes para aniquilar seus inimigos, sempre muito perseverantes. Hoje, meus heróis são outros. Podem ser vistos em qualquer lugar, principalmente em filas de hospitais e postos de saúde. Muitos deles vêm do interior do Estado, trazidos por dezenas de ambulâncias custeadas por seus municípios de origem, onde o atendimento é ainda mais precário. São tantos veículos que chegam a formar uma fila de 200 metros junto ao Parque da Redenção, conforme registrou o jornal Zero Hora em sua edição de sexta-feira, dia 23. A reportagem é um soco na cara daqueles que, em época eleitoral, colocam a saúde pública em primeiro lugar, mas que depois de eleitos jogam-na a um plano secundário, priorizando programas sociais demagógicos e populistas, enquanto cortam os já insuficientes recursos do orçamento da saúde para 2007. Os meus heróis estão nas filas dos hospitais - os que ainda conseguem permanecer em atividade - à espera de uma consulta ou, o que é ainda mais difícil, de um procedimento cirúrgico. Alguns sucumbem antes de receber atendimento. Meus heróis não têm superpoderes. Nem armas. São seres humanos, frágeis, vulneráveis à insensibilidade daqueles que detêm o poder e a chave do cofre. Na semana passada, em artigo publicado neste espaço, que tem sido uma tribuna em defesa da saúde e da população, o secretário municipal da Saúde, Pedro Gus, narrou o seu drama como gestor municipal e fez um apelo por um aumento no repasse de recursos por parte do Estado e, principalmente, da União. De tanto ouvir e ler que milhões de reais são destinados para isso e aquilo, inclusive com generosas ofertas para amenizar problemas socioeconômicos de países como Bolívia e Venezuela, entre outros, já não tenho dúvida de que a falta de investimentos no setor saúde no Brasil é, acima de tudo, uma questão de vontade política. O resultado é que cada vez aumenta mais o meu contingente de heróis, pessoas humildes que, para curar seus males, dependem do Sistema Único de Saúde, no qual outros heróis, médicos e demais profissionais da saúde, trabalham com abnegação e altruísmo para prestar um atendimento minimamente digno a essa multidão de desamparados. Decididamente, cada um escolhe os seus heróis. Os meus não são ministros nem usineiros. Marco Antônio Becker - Presidente do Cremers |
| Fonte: ZERO HORA - Artigos - Página 16 |
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