CINEMATERAPIA
Assim como mitos, romances, poemas, fábulas ou sonhos, filmes
são como alegorias – ou seja, representações
de idéias, sentimentos ou situações do dia-a-dia.
Muitos deles nos fazem repensar sobre nossa própria maneira
de encarar a vida, trazendo à consciência a forma de
nos relacionarmos com o mundo ou emoções que estavam
camufladas. Nesse sentido, o cinema não é simplesmente
uma válvula de escape para quando estamos tristes, mas também
uma ótima ferramenta para trazer um olhar mais ameno e arejado
para nosso cotidiano.
A
arteterapeuta Selma Ciornai, do Instituto Sedes Sapientae, em São
Paulo, recomenda filmes a seus pacientes com frequência. “Um
personagem pode ser bastante inspirador por expressar coisas que você
sente, mas para as quais não encontra palavras”, afirma
Selma. Como exemplo, ela cita o filme Thelma e Louise, a história
de duas amigas que, cansadas da rotina de donas-de-casa, embarcam numa
viagem transformadora.
A
enxurrada de emoções provocada por um filme é,
às vezes, bastante benéfica. “Usamos muito a dinâmica
compensatória”, explica Joya Eliezer, presidente da Associação
Brasileira de Arteterapia. “Se o sujeito está triste, recomendo
uma comédia. Se está desenganado, sugiro um filme romântico”.
Uma história cômica vira então uma verdadeira pílula
de riso, que dá aquele empurrãozinho que precisamos para
nos distanciarmos do nosso lado reclamão e sofredor. Parece uma
poção mágica, como o cogumelo de Alice no País
das Maravilhas: no instante em que rimos de nossos problemas, eles encolhem,
tornam-se leves e menos assustadores. E então encontramos forças
para dominá-los.
Da
mesma maneira, quando nos deparamos com uma situação complicada,
uma grande perda ou decepção, temos dificuldade de liberar
as lágrimas – por mais que queiramos. Um filme pode provocar
a resposta emocional para escoar a tristeza e, então, escalarmos
o caminho para fora do buraco.
O
norte-americano Gary Solomon fez da sétima arte o pilar de seu
trabalho como psicólogo. Solomon já escreveu dois livros
sobre como o cinema suscita respostas para várias questões
pessoais. Na introdução de sua segunda obra, Reel Therapy,
Solomon diz que, ao enxergar no cinema situações parecidas
com as que estão enfrentando, os pacientes não mais se
vêem sozinhos em seus dramas. “Validar suas emoções
é extremamente importante num processo de recuperação”,
escreve. “Meus pacientes deixaram de ficar envergonhados pelo
que estavam sentindo.”
Veja algumas recomendações dos especialistas para você
usar o cinema em prol da sua saúde.
As Confissões de Schmidt (EUA, 2002)
Direção: Alexander Payne. Com Jack Nicholson e Kathy Bates.
Aos 66 anos, Schmidt (Nicholson) mal teve tempo de se adaptar à
recente aposentadoria de uma firma de seguros, quando sua mulher morre
após quatro décadas de casamento. Ele se vê então
às voltas com a solidão e a saudade da filha, que mora
em uma cidade distante e está prestes a se casar com um homem
que ele considera um fracassado. E agora? Em busca de um sentido, Schmidt
parte a bordo de um trailer numa viagem por alguns dos lugares onde
viveu, conhecendo novas pessoas e tentando encontrar um lugar no mundo.
O filme inspira espectadores de todas as idades abordando o envelhecimento
e o distanciamento entre pais e filhos.
Ray
(EUA, 2004)
Direção Taylor Hackford. Com Jamie Foxx
Conta a vida do cantor Ray Charles (Jamie Foxx), nascido em uma pequena
e miserável cidade no estado da Georgia, Estados Unidos. Aos
7 anos, traumatizado ao testemunhar a morte de seu irmão mais
novo, sua visão se esvai até que ele fica completamente
cego. Incentivado pela dedicação da mãe, Ray encontra
seu dom como pianista. A fama explode quando ele ousa incorporar o gospel,
o country e o jazz, gerando um estilo inimitável. Ao mesmo tempo,
Ray luta conta a segregação racial e o vício da
heroína, numa ode à coragem, à determinação
e à vontade de viver.
Pequena
Miss Sunshine (EUA, 2006)
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris. Com Greg Kinnear
e Steve Carell.
Comédia independente profundamente humana e satírica sobre
uma família excêntrica que se amontoa numa Kombi enferrujada
para realizar o sonho da filha caçula de ser miss mirim. A cada
quilômetro de estrada em direção ao tal concurso,
as seis personagens encaram situações ora trágicas
ora divertidas, numa jornada em que as relações inter-pessoais
se transformam, obstáculos são superados e cada um passa
a aceitar as imperfeições alheias como parte integrante
da vida.
O
Céu de Suely (Brasil, 2006)
Direção Karim Aïnouz. Com Hermila Guedes.
Hermila (Hermila Guedes) é uma jovem sonhadora que volta de São
Paulo para a casa de sua família em Iguatú, no interior
do Ceará, carregando o filho recém-nascido no colo. Ela
espera a chegada do marido, mas ele nunca chega. Sozinha, Hermila tenta
reeinventar a sua vida, mas continua com o desejo de ir embora para
o lugar mais longe possível. A história de Hermila remete
ao abandono e ao sentimento de inadequação daqueles que
deixam a sua casa em busca de um lugar para si.
Cão
Sem Dono (Brasil, 2007)
Direção: Beto Brant e Renato Ciasca. Com Júlio
Andrade e Tainá Müller.
O longa explora a passagem para a vida adulta, a solidão e a
dificuldade de amar. Ciro (Júlio Andrade) é um tradutor
desempregado de 20 e poucos anos que vive em completa apatia, praticamente
isolado do contato humano, num pequeno apartamento de Porto Alegre.
Sua vida letárgica é subitamente invadida por Marcela
(Tainá Müller), uma bela modelo com quem ele não
consegue assumir um relacionamento.
Fonte:
Revista Saúde é Vital
|